Janeiro Seco: e se você parasse de consumir álcool por um mês?

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Quem aceita o desafio garante que os benefícios da abstenção no consumo de álcool valem a pena

Parece inimaginável para alguns. Para quem experimentou, no entanto, os benefícios são diversos. Aproveitar o período de festança pós-Natal e Ano Novo para se abster em consumir álcool por todo o mês é o desafio do Janeiro Branco – Dry January em inglês,   iniciativa proposta pela organização britânica Alcohol Change UK. O objetivo é despertar nas pessoas as vantagens em levar uma vida sem o consumo de bebidas alcoólicas. 

Iniciada em 2013, a campanha hoje tem adeptos em todo o mundo, todos interessados em observar os mais variados benefícios em abster-se de bebidas alcoólicas durante esse período. Para os adeptos do Janeiro Seco, suas vantagens são inegáveis, como humor mais calmo e com menos agitação, noites de sono bem aproveitadas e até benefícios estéticos, como uma pele melhor. É importante lembrar que, com as funções cognitivas melhores, o rendimento no trabalho e nos estudos também podem ser beneficiados.

A campanha também já foi observada de forma mais próxima por vários estudos, que são unânimes em detalhar que o hábito de se abster de álcool por um período pequeno traz benefícios para além dos 31 dias.  Em 2016, um estudo coordenado pela Associação Americana de Psicologia demonstrou que os participantes do Janeiro Seco tendem a diminuir o consumo de álcool para além do período proposto, consumindo menos da substância semanalmente por até 6 meses depois. 

Consumo excessivo e alcoolismo

É comum que quando se fale sobre a diminuição consciente no consumo da substância se ouça piadas e outros recursos de bom humor. No entanto, seu consumo excessivo é um assunto de saúde pública, e tem chamado a atenção de especialistas brasileiros. Dados do Covitel – estudo realizado a partir da pandemia para monitorar por telefone a ocorrência de doenças crônicas – em parceria com um teste da Organização Mundial da Saúde, mostram que, em 2023, 6 milhões de brasileiros (4%) consumiam álcool de maneira excessiva. 

Para definir consumo excessivo, utilizou-se o cálculo proposto pela OMS de sete doses semanais para mulheres e 14 doses semanais para homens, sendo 1 dose igual à 14 g de álcool. Para atingir esse nível, é preciso consumir, em média, 150 ml de vinho, 350 ml de cerveja ou 45 ml de destilado. A proposta do Janeiro Seco é levar esse consumo à zero. 

Para o docente e coordenador do curso de Enfermagem da Faculdade UniBRAS Gama, Célio Pereira, são várias as alterações fisiológicas causadas pela absorção do álcool pelo corpo. “Entre as principais alterações estão a desidratação, a redução da glicose no sangue e alterações no relógio biológico e no sistema imunológico”, explica. Mas o professor adianta que essas alterações não se resumem somente aos sintomas físicos, mas também emocionais. 

“No cérebro, a substância age como depressor do sistema nervoso central, fazendo com que a atividade cerebral diminua, mudando também a ação dos neurotransmissores. Com uma ingestão baixa, a tendência é que a pessoa fique mais desinibida, relaxada ou até mesmo levemente eufórica. Com o aumento da ingestão, outras reações vão surgindo, como lerdeza nos reflexos, desatenção contínua, perda de memória, capacidade de raciocínio alterada e falta de equilíbrio”. 

O também docente e coordenador do curso de Psicologia da UniBRAS Gama, Robson Luís de Araújo, alerta que o álcool, assim como outras substâncias, é usado frequentemente como válvula de escape, inclusive para promover a socialização. “Isso é muito prejudicial, porque o indivíduo não percebe que está doente, já que a substância age no sistema nervoso central e alivia angústias, dores, e outros sintomas relativos ao adoecimento mental”, alerta. 

Robson destaca que, obviamente, não é só consumir álcool que funciona como escape, mas também as drogas e os fármacos – quando utilizados de forma inadequada e sem acompanhamento profissional. Porém, no caso específico do álcool, isso acaba sendo mais banalizado, já que a substância é legal e muito bem aceita socialmente. 

“Há diferenças entre o consumo excessivo e o alcoolismo. No alcoolismo, é quando se tem uma dependência desse consumo, em que o indivíduo não consegue mais superar as situações estressoras do dia a dia sem consumir álcool. Ele já não consegue mais descansar, socializar ou se desligar sem a bebida alcoólica. É ainda mais grave quando o consumo é feito durante todo o dia, principalmente em momentos de decisão”, explica. 

O especialista enfatiza que quanto mais banal for a decisão a ser tomada que dependa desse consumo, mais grave é o quadro. Nesse sentido, esses processos de decisão acabam gerando alterações neuroquímicas que só são aliviadas com o álcool. 

O diagnóstico é confirmado quando essa pessoa já não consegue mais ficar sem consumir álcool de maneira alguma.

 “Se é proposto a esse indivíduo uma abstenção do uso, e ele então começa a sofrer com sintomas como insônia, sudorese, nervosismo, entre outros, isso já se caracteriza como adicção. A partir daí, para tratar esse distúrbio, será necessário acompanhamento de especialistas, passando por medicação, psicoterapia, acompanhamento nutricional, exercícios físicos, além de terapêuticas, que são atividades que aliviam o sofrimento”. 

O professor descarta a possibilidade de internação compulsória nesses casos, já que ela vem se mostrando bastante ineficiente. Mas é enfático sobre a necessidade de autoconsciência, quando o indivíduo entende que está passando por um problema, e também do apoio familiar, que diz ser indispensável. 

Por último, Robson explica que o alcoolismo nunca se instala sozinho, mas sempre como um processo patológico secundário, ou seja, um adoecimento mental prévio, que tem o consumo de álcool como resposta. 

E se Janeiro já estiver passado?

Imagine que você se pegue nesse dilema: aceitar o desafio do Janeiro Seco, mas o mês já passou. Não se preocupe! A Alcohol Change UK, que propõe a campanha, garante que é perfeitamente possível fazer o desafio em qualquer época do ano, já que Janeiro é só um mês simbólico. Por isso, você pode começar observando os dias necessários para cumprir o desafio, e existe até um aplicativo para ajudar a monitorar esse desafio. 

Mas atenção: o desafio não é indicado para pessoas que de fato têm dependência em consumir álcool. Nesse caso, o indicado é que essa pessoa busque ajuda profissional, já que se abster da substância de forma abrupta pode trazer sérios prejuízos à saúde. 

E, por último, é claro, se você iniciar o desafio e tiver muita dificuldade, aproveite a oportunidade para visitar um profissional de saúde mental. O cuidado é essencial para se ter uma vida mais feliz e saudável. 

(Texto: Bruno Correa – Assessoria de Comunicação do Ecossistema BRAS Educacional)

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